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Margarida Diogo Barbosa

Um blogue que aborda os recursos humanos numa perspectiva de todo.

16
Mai19

O amor e a fibra da comunidade

Se queremos saber qual é a fibra da comunidade social em que vivemos sugiro que nos sentemos num café e conversemos casualmente com as pessoas à nossa volta. Por certo, não me refiro a conversas sobre a meteorologia ou futebol, mas aquelas em que as pessoas nos contam histórias das suas vidas e das pessoas que delas fazem parte. Essas sim nos dizem em que comunidade vivemos.

Nos anos em que vivi na província percebi que em aldeias ou vilas muito pequenas o único verdadeiro ponto de encontro e per si lugar social é o café, onde ao fim de semana todos se encontram e por aqui ficam a manhã toda à conversa. No início, confesso, os meus hábitos lisboetas carregados de condescendência não me permitiram ver as pessoas à minha volta e muito menos aquelas que estavam desejosas de conversar comigo. Tudo me parecia inconveniência e coscuvilhice até ter aparecido a D. Julieta.

Conheci a D. Julieta num sábado gelado em que o calor humano do café não deixava nenhuma cadeira disponível, a não ser a terceira da minha mesa onde eu estava a tomar o pequeno almoço com a minha filha. Perguntou-me se se podia sentar e eu ajeitei-lhe a cadeira.

Assim que se sentou, sem rodeios e num jeito provinciano que hoje tanto me comove e me guia, disse-me que a minha avó Teodora tinha sido uma das pessoas que mais tinha estimado na sua vida. Para uma lisboeta condescendente dizer-lhe que fiquei comovida e simultaneamente surpreendida seria provavelmente um understatement e aquela dose de honestidade crua foi o mote para uma longa conversa de café. Falámos sobre a sua juventude, sobre a sua família, sobre a minha, mas sobretudo falámos sobre a estima que tinha pela minha avó que no período mais difícil da sua vida foi a única que lhe estendeu a mão e que teve a coragem de mostrar a qualidade da sua fibra enquanto mulher. Para mim um orgulho porque sempre tive a minha avó como uma mulher tradicionalista e conversadora.

A D. Julieta amou perdidamente, como quase todas nós já amámos, mas no seu caso o seu amor foi violentamente interrompido pelo desinteresse do seu pretendente, ao que parece poucos dias antes do casamento. Nos dias que correm tenho a certeza que seria rei morto, rei posto, mas naquela altura viver numa comunidade pequena e tradicional tinha outro significado, outra responsabilidade e por esse motivo nunca casou, ao que parece a vida (ou a comunidade) nunca mais lhe deu outra oportunidade. Resumiu-se a ser a tia-ama dos sobrinhos e a guardar memórias num quarto modesto de um anexo da casa. O seu conformismo, a sua resignação perante os factos da vida, em contraste com a qualidade da fibra da sua comunidade que a deixou desamparada quando mais dela precisava deixou-me enternecida, mas também orgulhosa da minha avó que foi o seu único ombro amigo, a única que a consolou e que tantas e tantas vezes lhe disse “Deixa isso rapariga, não te incomodes.”

Na minha profissão, assisto muitas e muitas vezes e num silêncio que tem de ser quase sempre consentido, a gestos profundamente discriminatórios e que são também reveladores da qualidade da fibra de quem os pratica. O meu único conforto é compreender de onde viemos e reconhecer as oportunidades do que ainda podemos vir a alcançar e a ser enquanto comunidade social.

~A todas as Julietas que existem neste Mundo~

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